Ombro & Cotovelo

Dor no cotovelo ao digitar ou jogar padel: pode ser epicondilite

O apelido "cotovelo de tenista" é injusto: a maioria dos pacientes que atendo com esse diagnóstico nunca pegou numa raquete. E o tratamento, embora simples, cobra paciência.

Dra. Milena Lopes Ortopedista · CRM-SP 208183 · RQE 120961 Publicado em 6 min de leitura
Jogador de padel pausa e segura a parte externa do cotovelo.
Imagem ilustrativa gerada digitalmente; não retrata paciente nem procedimento real.

A epicondilite lateral é uma lesão dos tendões extensores do punho, no ponto em que eles se inserem na face externa do cotovelo. O nome sugere inflamação, mas o que se encontra no tecido, na maior parte dos casos crônicos, é degeneração — fibras desorganizadas, tentativa falha de reparo. Por isso muitos especialistas preferem o termo "tendinopatia lateral do cotovelo".

Essa distinção não é preciosismo: ela explica por que anti-inflamatório sozinho raramente resolve e por que o tratamento que funciona envolve carga progressiva, não repouso absoluto.

O que esperar, com números: a evolução natural é favorável, mas lenta. A literatura descreve sintomas durando de 6 a 24 meses, com cerca de 90% dos pacientes resolvendo completamente em até um ano. Somente 4% a 11% acabam precisando de cirurgia.

O que costuma causar

Sobrecarga repetitiva — e ela está muito mais no cotidiano do que na quadra:

  • uso prolongado de mouse e teclado;
  • uso de ferramentas manuais, chaves de fenda, alicates;
  • carregar sacolas ou objetos com a palma virada para baixo;
  • aumento súbito de treino em esportes de raquete — aí sim, padel e tênis entram, sobretudo com empunhadura ou técnica inadequada.

Como reconhecer

A dor é bem localizada na face lateral do cotovelo e piora em gestos específicos: apertar a mão de alguém, girar a maçaneta, levantar a xícara de café, estender o punho contra resistência. Muita gente relata perda de força de preensão — não porque o músculo enfraqueceu, mas porque dói usá-lo.

O diagnóstico é clínico. Exames de imagem entram apenas quando há dúvida ou quando o quadro não responde: o ultrassom mostra alterações no tendão, e a ressonância ajuda a afastar outras causas, como instabilidade ou compressão nervosa.

Tratamento: por onde começar

  1. Ajustar a carga, não parar tudo. Reduzir temporariamente os gestos que provocam dor, ajustar ergonomia do posto de trabalho, revisar a técnica esportiva.
  2. Exercício progressivo. Fortalecimento dos extensores com progressão de carga é o pilar do tratamento moderno — as diretrizes de fisioterapia para dor lateral do cotovelo colocam o exercício como intervenção central.
  3. Ondas de choque — pulsos de energia mecânica de alta potência aplicados diretamente na região afetada do cotovelo. As ondas criam microlesões controladas que estimulam a circulação sanguínea, promovem a regeneração dos tecidos e ajudam a diminuir a inflamação.
  4. Órteses (a faixa/brace de antebraço) podem ajudar no alívio dos sintomas durante as atividades, como medida auxiliar.
  5. Medicação para controle sintomático, quando necessário e por tempo limitado.

E as infiltrações?

Aqui prefiro ser bem clara, porque há muita expectativa equivocada:

  • Corticoide: alivia rápido — efeito máximo por volta de 6 a 8 semanas — mas os estudos não mostram benefício a longo prazo, e há relatos de recorrência dos sintomas depois. Uso pontual, em situações específicas.
  • PRP: age mais devagar, mas revisões sistemáticas mostram superioridade sobre o corticoide a partir de 3 a 6 meses, em pacientes que já falharam no tratamento conservador. Uma opção para casos refratários.

A cirurgia fica reservada para a minoria que continua sintomática após 6 a 12 meses de tratamento bem conduzido.

Procure um ortopedista se

  • a dor lateral no cotovelo persiste há mais de seis semanas;
  • você perdeu força para segurar objetos do dia a dia;
  • há formigamento ou dormência na mão — isso sugere outro diagnóstico;
  • a dor acorda você à noite.

Perguntas frequentes

Quanto tempo demora para curar?

Costuma levar de 6 a 24 meses, com cerca de 90% dos casos resolvendo em até um ano. É um quadro de evolução favorável, mas lento — e essa é justamente a parte mais difícil para quem convive com a dor.

Preciso jogar tênis para ter "cotovelo de tenista"?

Não. A maioria dos pacientes nunca jogou. A sobrecarga repetitiva do dia a dia — mouse, teclado, ferramentas, sacolas — responde pela maior parte dos casos.

Infiltração de corticoide resolve?

Alivia no curto prazo, com pico por volta de 6 a 8 semanas, mas sem benefício demonstrado a longo prazo. Em casos refratários, o PRP tende a ter melhor desempenho a partir de 3 a 6 meses.

Posso continuar treinando padel?

Em geral sim, com ajustes: reduzir volume, revisar empunhadura e técnica, e manter o programa de fortalecimento. Parar completamente costuma atrasar a recuperação do tendão.

Fontes consultadas

  1. Academy of Hand and Upper Extremity Physical Therapy / Academy of Orthopaedic Physical Therapy, APTA. Lateral Elbow Pain and Muscle Function Impairments: Clinical Practice Guidelines. JOSPT, 2022. jospt.org
  2. A Clinical Overview of the Natural Course and Management of Lateral Epicondylitis. Orthopedics, 2023. journals.healio.com
  3. Corticosteroid injections are superior to PRP at 1 month but PRP is more effective at 6 months: updated systematic review and meta-analysis. J Shoulder Elbow Surg, 2023. PubMed 37247780

Texto escrito e revisado clinicamente por Dra. Milena Lopes (CRM-SP 208183 · RQE 120961). Última revisão: 18 de setembro de 2026.

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Aviso: conteúdo educativo. Dor lateral no cotovelo pode ter outras causas, incluindo compressão nervosa e instabilidade — apenas a avaliação presencial diferencia com segurança.

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